Revista Brasileira de Gestao Ambiental e Sustentabilidade (ISSN 2359-1412)
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Vol. 12, No 32, p. 1149-1164 - 31 dez. 2025

 

Deferência administrativa e federalismo regulatório no Direito Ambiental brasileiro



Frederico José Gervasio Aburachid e Martha Fernanda Caovilla da Costa

Resumo
A regulação ambiental brasileira caracteriza-se pela complexa interação entre a expertise técnica e a repartição federativa de competências. Este ensaio examina como a deferência administrativa e o federalismo cooperativo constituem instrumentos essenciais para a efetividade das normas ambientais, utilizando como um dos casos paradigmas a decisão do Supremo Tribunal Federal na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6536, sobre o Novo Marco Legal do Saneamento Básico. A pesquisa, baseada em análise doutrinária e jurisprudencial, demonstra que a legitimação da função regulatória de órgãos técnicos especializados não conflita com o pacto federativo e com a separação de poderes. A evolução da Doutrina Chevron nos Estados Unidos oferece importantes lições sobre os limites da deferência judicial, enquanto a experiência europeia ilustra os riscos da centralização excessiva no federalismo. A decisão da ADI 6536 representa um marco na consolidação do federalismo regulatório brasileiro, reconhecendo tanto a necessidade de padronização técnica quanto o respeito à autonomia municipal. Conclui-se que o equilíbrio entre expertise técnica, legitimidade democrática e autonomia dos entes federativos constitui desafio permanente para o ordenamento jurídico-ambiental, exigindo aperfeiçoamento da Administração Pública e dos demais meios institucionais de coordenação, participação social e controle, sem os quais nem a eficiência regulatória nem a proteção ambiental podem ser adequadamente asseguradas.


Palavras-chave
Deferência administrativa; Federalismo cooperativo; Direito Ambiental; ADI 6536; Regulação técnica.

Abstract
Administrative deference and regulatory federalism in Brazilian environmental law. Brazilian environmental regulation is characterized by the complex interaction between technical expertise and the federative distribution of competencies. This article examines how administrative deference and cooperative federalism serve as essential instruments for the effectiveness of environmental norms, using the Supreme Federal Court’s decision in Direct Action of Unconstitutionality (ADI) 6536 concerning the New Basic Sanitation Legal Framework as a paradigmatic case. The research, based on doctrinal and jurisprudential analysis, demonstrates that the legitimization of the regulatory function of specialized technical bodies does not conflict with the federative pact and separation of powers. The evolution of the Chevron Doctrine in the United States offers important lessons about the limits of judicial deference. At the same time, the European experience illustrates the risks of excessive centralization in federalism. The decision on ADI 6536 marks a milestone in the consolidation of Brazilian regulatory federalism, recognizing both the need for technical standardization and respect for municipal autonomy. It is concluded that the balance between technical expertise, democratic legitimacy, and the autonomy of federative entities constitutes a permanent challenge for the legal-environmental framework, requiring improvement of Public Administration and other institutional means of coordination, social participation, and control, without which neither regulatory efficiency nor environmental protection can be adequately ensured.


Keywords
Administrative deference; Cooperative federalism; Environmental law; ADI 6536; Technical regulation.

DOI
10.21438/rbgas(2025)123203


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